Motores e cavalos: uma relação com 250 anos

Sem eles teríamos muito mais trabalho para fazer quase tudo. Graças à ideia de um escocês, em 1765, a humanidade passou a ser capaz de produzir energia, utilizando-a para transformar todo o planeta.

A experiência de viajar entre dois pontos, sem esforço, deve ter sido uma das mais emocionantes da História. Desde a invenção da roda durante o período neolítico que as leis do movimento se transformaram, mas entre a solução para os problemas de deslocamento de pessoas e bens e o surgimento do primeiro veículo automóvel, passaram milhares de anos. Foi preciso dominar a mecânica, logo a partir do século I — com os primitivos engenhos movidos a vapor — para chegar à primeira máquina de combustão interna no final século XIX.

A primeira aplicação prática do motor a vapor ocorreu pelas mãos de Thomas Newcommen em 1712. O escocês James Watt melhorou o engenho e em 1765 deu origem à fase de expansão dos motores de combustão externa, usando combustíveis como carvão, madeira ou óleo que revelavam uma elevada tendência para explodir. Em meados de 1860 chegou o motor de combustão interna, inventado por Ettienne Lenoir com o objectivo de bombear água das galerias das minas. Em 1876, Nicolas Otto desenhou o primeiro motor a 4 tempos com arquitectura semelhante à usada hoje em dia com cilindros, pistões, biela e cambota.

Em 1885 Daimler e Maybach instalaram um pequeno engenho mono-cilíndrico num veículo de duas rodas feito em madeira. Debitava 0,5 CV e permitia alcançar velocidades de 12 km/h naquela que é considerada a primeira motorizada da História, conhecida por “Reitwagen”. No verão de 1886 uma nova versão foi instalada num veículo de atrelagem, com duas fileiras de bancos e quatro rodas, ficando o motor em posição central. Refrigerado a ar e capaz de produzir 1,1 CV, este pequeno motor deu origem à aventura do automobilismo e a 129 anos de uma história que parece interminável. O carro anteriormente puxado por equinos de carne e osso passou a ser movido por um novo tipo de cavalo.

Em 1892 Rudolf Diesel patenteou o motor a gasóleo, sem imaginar que séculos depois veria o seu nome de família adoptado por marcas de combustíveis e de automóveis, em mais um episódio clássico de apropriação do nome do criador pela tecnologia. A mecânica Diesel é hoje um ícone da motorização, pelo seu papel nos meios de transporte, mas sobretudo pela extrema importância que teve e continua a ter em muitos países, como geradora de energia eléctrica. Na Dinamarca prestam-lhe homenagem neste museu onde é exibido um dos maiores motores a gasóleo em funcionamento. Na história do motor há vários marcos evolutivos mas em 1957 houve um momento revolucionário: o motor rotativo. Inventado por Felix Wankel, é um dos poucos motores sem pistão que se tornou comercialmente viável, equipando vários veículos, entre motos, automóveis e aeronaves.

O século XX trouxe a injecção directa, materiais mais leves e resistentes, computadores de bordo e tecnologia híbrida entre muitas outras inovações. Mas a arquitectura básica dos motores térmicos a quatro tempos mantém os mesmos princípios de Nicolas Otto. Nos motores de pistão a disposição dos cilindros pode ser linear (de 2 a 6 cilindros em linha), em V (de 2 a 12 cilindros dispostos num ângulo até 90 graus) em W (dois motores em V, como no W16 do automóvel mais veloz do mundo) e em H, ou horizontalmente opostos, mais conhecidos por“boxer” normalmente com 4 ou 6 cilindros num ângulo de 180 graus.

Entre a grande variedade de sistemas de propulsão disponíveis – veículos híbridos, híbridos plug-in e também os de células de hidrogénio – os automóveis totalmente elétricos parecem estar a ganhar protagonismo. São a tendência de futuro que se vai afirmando lentamente, é certo, à medida que a autonomia aumenta e os tempos de carregamento se reduzem. As questões ambientais e toda a problemática associada ao consumo de combustíveis fosseis vão continuar a impulsionar o desenvolvimento de motores não poluentes. E pensar que no início do século XX os automóveis foram considerados uma alternativa ecológica perante a elevada “poluição” provocada pelos cavalos, então usados em grande número por todos os tipos de transporte.

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